Tuesday, March 04, 2008

A Ermida de Santa Cecília

No topo de um dos montes que formam a Cordilheira de Padrela existe uma ermida que, dizem os idosos dos povoados vizinhos, teria sido construída por volta de 1770. É toda de pedras de granito cinza e mais parece um pequeno castelo do que uma capela. È dedicada a Santa Cecília, a padroeira dos músicos.

De acordo com a biografia desta Santa, ela nasceu no principio do século III de uma antiga família da nobreza romana. Foi vitima da perseguição aos cristãos, tendo sido decapitada. Diz a lenda que, no entanto, a cabeça dela não caiu e ela ainda viveu durante três dias. No ano de 225 DC, o Papa Urbano mandou recolher o seu corpo e depositá-lo nas catacumbas de São Calisto. Mais tarde, em 821, o Papa Paschal I mandou transferir o seu corpo para uma Basílica a ela consagrada.

Erradamente, a imagem desta Santa é retratada tocando um órgão. Isto sucedeu porque havia uma inscrição na sua tumba onde se lia “Canentibus organis”. No entanto, “organis” foi mal traduzido, uma vez que “organa” era um instrumento musical dos músicos que animavam as festas. Isto levou alguns pintores a interpretarem a frase como “Cecília cantando com acompanhamento de órgão”.

A verdade dos factos é que ela é mais reconhecida como tocadora de harpa.

Seja como for, nas minhas andanças pelos montes e florestas, a pesquisar as pequenas ermidas, ao deparar com esta de Santa Cecília, quis conhecer o seu interior. Alguém deveria ter a chave da sua sólida porta de carvalho, de fortes fechaduras e travas de ferro. Não muito longe dali havia uma pequena casa de lavoura, dessas que, freqüentemente, se encontram no norte de Portugal.

Decide ir bater á porta. Logo apareceu uma mulher já entrada nos anos, mas de olhos vivos e inteligentes e de um sorriso de boas vindas nos lábios, que se apresentou como sendo a D. Rosa. Indaguei sobre quem teria a chave da ermida. Logo respondeu, que eu estava de sorte, pois a chave estava com ela. Perguntei ainda o que ela me podia dizer sobre a ermida. Logo me respondeu que, antigamente, um sacerdote da cidade, ali vinha um domingo por mês para rezar a santa missa. Mas ele havia falecido já ia em três anos e a ermida simplesmente foi esquecida. Exceto nos dias 22 de Novembro, data da Santa Cecília, quando ela, encarregada da sua custódia, abria a porta, limpava o que podia, colocava flores e deixava que crentes e curiosos viessem rezar na ermida, ou simplesmente saciar a sua curiosidade.

Eu, afinal, era um dos curiosos. Dirigi-me á porta, que no dobrar da chave, cedeu com ruído, próprio da vetusta madeira. Entrei em silêncio e respeitosamente.

Dentro, nada havia de especial, ou mesmo de interesse artístico. As quatro paredes eram caiadas de branco. No altar mor, um crucifixo simples, cuja cruz não seria de prata. A imagem do Cristo seria talvez de madeira, ou cerâmica, não sei. No altar, uma toalha de rendas, empoeirada, duas jarras de vidro, de flores já murchas. Dois candelabros de vidro, com velas brancas, uma delas já só pela metade.

No lado esquerdo, o altar da Santa Cecília, cuja imagem, com um manto azul, era até bem formosa; aos pés uma harpa. Mas o que mais me chamou a atenção e aguçou a curiosidade foi o órgão de sopro, na parede oposta, composto de três tubos alimentados pelo sistema de foles e acionado por meio de um teclado manual, além de duas pedaleiras. Como muitas vezes nós adultos agimos como crianças curiosas, eu sentei-me no pequeno banco de fronte do órgão, pedalei com vontade e tentei tocar uma música popular que me veio à mente. Nada aconteceu. Nem um som, sequer. Tentei, tentei e nada. Concluí que o fole deveria estar furado, por onde o ar escapulia e portanto não havia jeito de tocar qualquer música. Por fim, desisti e saí da ermida. Fui entregar as chaves á D. Rosa. Continuei a minha caminhada pelo morro, mas quando passei, novamente, de fronte da ermida, escutei, atônito, mas também encantado, uma música suave e melodiosa, que só poderia advir das cordas de uma harpa. Logo em seguida seguiram-se os acordes mais agudos e graves do órgão de fole.

Mas como? A harpa, nos pés de Santa Cecília não era senão um objeto que compunha a imagem da Santa. O órgão, eu próprio tudo fiz para o tocar, não emitia um som. E agora, escuto ambos os instrumentos, tocando música sacra?!

Não obstante o meu agnosticismo, não pude deixar de reconhecer que eu fora testemunho de algo milagroso e divino.