Friday, August 31, 2007

O SEGREDO DO VELHO MONGE


Subia eu a Cordilheira da Trindade,
Quando uma medonha tempestade,
De forte chuva e trovoada
Me fez procurar abrigo
Em um convento antigo
Sito numa encosta escarpada,
Coberta de giestas e flores.
Entrei no claustro escuro,
De colunas de mármore imponentes;
Era sem dúvida um lugar seguro
E teria sido o lar de monges pecadores
Ou monges santos - não sei!
Em vão caminhei
Ao longo do claustro solitário,
Ninguém encontrei ...
As celas de portas escancaradas
Testemunhavam a história do convento
Agora abandonado.
Por um momento
Achei ter vislumbrado
Uma tênue luz no final.
Apressei o passo e na última cela
A porta entreaberta
Difundia a luz trêmula
De uma única vela!
Um velho monge de hábito desbotado,
Cabelos longos em desalinho
Rezava baixinho.
Não o quis perturbar.
Cerrei a porta de mansinho
E afastei-me na cerração da serrania.
A noite caía!


Na manhã seguinte dirigi-me novamente ao mosteiro. Percorri o claustro silencioso até á última cela. Desta vez a porta estava semi-aberta. Abri-a por completo. O velho monge de hábito já muito desbotado, de joelhos perante uma cruz negra, rezava baixinho. Os cabelos longos, prateados, em desalinho, a barba longa, branca, que lhe descia até ao peito, deu-me, á primeira vista, a imagem de um louco. Quando se levantou e me fitou, vi os seus olhos azuis, de uma intensa luz que denotavam inteligência e vida.
____Entrai irmão – ele falou – e sentai-vos. Não tenho senão água pura e fresca para oferecer-vos. Agora que a tempestade passou e hoje é um lindo dia, poderemos colher umas maçãs na única macieira que resta no nosso jardim. Também deve haver algumas cenouras ou nabos no solo já pobre – e tão fértil que era – para mitigar a fome. A voz desse monge era doce e afetuosa.
____Obrigado, padre. Sou jornalista independente, isto é, não trabalho para nenhum jornal. Vendo as minhas reportagens, sempre de teor social, para o jornal que melhor pagar. Meu nome é Francisco Ramalho de Menezes. Subi a montanha para conversar com os pastores. Desejava obter deles alguma história de suas vidas, que me desse tema para uma reportagem. Porém a tempestade alcançou-me e, felizmente, deparei com este convento para abrigar-me. Agora vejo que, melhor do que eles, talvez seja o senhor quem pode fornecer-me os dados de uma interessante história.
____Talvez até possa dar-vos breves rudimentos sobre a minha vida e este convento, que por ventura tenham valia para a sua obra. Olhe, meu amigo, celebrei semana passada 91 anos. Sou o último monge, Francisco de Jesus.
Todos os outros já se foram para a casa do PAI Eterno. O bispo desta diocese de Bragança quis fechar o convento, quiçá até vender a propriedade, mas decidiu por respeitar a minha estada aqui. Se me tirassem deste meu único lar, eu não agüentaria. Vivo muito só. A sua visita é bem vinda, precisamente como um lenitivo à minha solidão.
____Nasci em 1915 numa herdade, não longe daqui, nesta Cordilheira de Peneda que fora da minha família, por muitos e muitos anos. Agora já não existe; foi vendida a outros agricultores e depois retalhada para vários herdeiros. Meu tio-avô, Manuel Francisco de Jesus, era o abade deste convento. E foi ele e outros eruditos monges que, tinha eu seis anos, passaram a cuidar da minha educação. Aqui aprendi a ler e escrever, estudei história, matemática, ciências, teologia e até o Latim e o Grego. Seis anos depois eu já estava na faculdade da cidade mais próxima. Então a minha vida mudou completamente.
____Eu tinha uma irmãzinha, dois anos mais nova, ... chamava-se Marilda e parecia um verdadeiro anjo. Era o meu enlevo. Prestes a terminar o ensino secundário e daí ingressar na faculdade de medicina, tinha eu então 18 anos e ela 16, vim aqui visitar meus pais e os meus queridos monges. Meu tio-avô já havia falecido. Uma tarde resolvi passear pelas florestas que abundam nesta região serrana de Trás-os-Montes. Levava comigo o nosso cão de caça e a espingarda, calibre 12, de dois canos, que pertencia a meu pai. Havia muitos coelhos e muitas perdizes por estes campos. De repente o meu cão ficou extremamente nervoso, cheirando o ar. Pensei que estivesse farejando caça. Incitei-o a que fosse procurar. Largou em disparada, direto a um matagal não mui distante. Eu corri atrás e quando cheguei perto congelei.

Eu escutava atenciosamente. O padre silenciou por alguns momentos. As lágrimas corriam-lhe pela face enrugada.
____Então continuou: Minha irmãzinha estava ali, nua, amarrada e morta. Havia sido torturada, estuprada e depois degolada. Fiquei doido e ali jurei a Deus e a todos os santos que eu faria o possível e o impossível para descobrir os assassinos e os mataria. Uns dias depois do funeral de Marilda, peguei no velho revolver de meu pai e na espingarda de dois canos, muni-me de bastantes balas e cartuchos e fui à caça ... desta vez à caça dos assassinos. Sempre acompanhado do meu fiel cão, que parecia compartilhar da minha dor e do meu propósito, enveredei pela serrania e pelas florestas. A pastores que cuidavam de seus rebanhos fui perguntando se haviam visto os malfeitores. Ao terceiro dia, um pastor informou que três desconhecidos, gatunos ou contrabandistas, estariam acampados, não muito longe, num pinheiral que se via a um quilometro adiante. Fui-me aproximando do local e quando cheguei mais perto passei a rastejar, para não ser descoberto.. A uns 50 metros de distância, podia ver os assassinos, podia ver bem os assassinos. Estavam bebendo, fumando e conversando. Logo vi que no pescoço de um deles estava o colar que fora de minha irmã. Era um colar de pérolas brancas que meu pai lhe havia oferecido no seu décimo quinto aniversário. Tinha a certeza agora que eram estes quem eu caçava. Levantei-me, destravei a espingarda, mirei bem no primeiro dos assassinos, apertei o gatilho do primeiro cano e disparei. Acertou-o em cheio no peito, abrindo um largo buraco. Sem perder tempo, mirei no segundo e disparei o outro cano. Acertou também no peito do outro. Ambos caíram para trás, O terceiro meliante levantou-se para fugir, mas não lhe dei tempo. Saquei o revolver de meu pai e atirei na cabeça dele. Também caiu moribundo. Mas eu não havia terminado a minha vingança. Restava retirar o colar de minha irmã e certificar-me que, realmente, os três estavam mortos. Acerquei-me dos corpos. Carreguei a espingarda e á queima roupa disparei na área genital de cada um. Os órgãos genitais desapareceram no largo buraco que restou desses corpos imundos.
____A minha jura fora cumprida. Quando cheguei a casa , contei a meu pai o que havia feito. Ele não disse uma palavra... simplesmente me abraçou a chorar.
____Mais tarde, já mais resignado, falou-me: “Meu filho, fizeste o que eu teria feito. Porém, matastes três homens e a policia virá procurar-te, pois as pistas todas indicam que foste tu o autor dos homicídios. Amanhã, cedinho, dar-te-ei uma carteira com dinheiro e tu deves fugir”.
____E assim foi que no verão de 1933 me tornei um fugitivo da justiça. Levava comigo trajes de pastor, albornoz, alforje, cajado e chapéu de abas largas. No alforje coloquei trocas de roupas íntimas, camisas de algodão, um par extra de calças de brim, um par de botas, documentos, alguns itens de toilete, uma garrafa de boa bagaceira para melhor enfrentar o frio da noite nas montanhas que iria atravessar. Por outras palavras, caracterizei-me de pastor de ovelhas. Caminhei de serra em serra, evitando sempre as grandes cidades. Apesar de ter comigo suficiente dinheiro para pagar transportação de carro ou trem, achei mais seguro caminhar. Amiúde, convivia e participava com os pastores de suas frugais refeições. Dormia ao relento, como eles, ou em alguma cabana que eles próprios haviam construído. Á medida que os dias passavam, uma paz interna me envolvia. Porém os meus sonhos eram estranhos. Minha irmã sempre aparecia rogando para que eu me penitenciasse pelo crime que havia cometido.. E assim foi que ao atravessar a cordilheira dos Pirineus, eu deixei os trajes de pastor e os substitui pelos de peregrino.
Continuei caminhando, agora com um objetivo importante: visitar o Santuário de Lourdes, uma pequena cidade francesa localizada aos pés dos Pirineus. Foi na Gruta de Massabielle, nos arredores de Lourdes que a Virgem Maria apareceu 18 vezes a Bernardet Sonbirou, uma jovem camponesa de 14 anos. Essa visita mudou, de fato, a minha vida. Agora o que eu precisava fazer, era chegar a Roma, confessar-me na Basílica de São Pedro, ingressar na Ordem dos Franciscanos e fazer da minha vida uma missão de ajuda aos pobres. Finalmente cheguei a Roma em 1934, depois de um ano a viajar pela Europa. Era, contudo, um outro homem. Já em Roma, pedi hospedagem no Convento da Ordem Terceira de São Francisco e, contando a minha ligação com os franciscanos, desde o meu tio-avô que havia sido abade franciscano, declarei que desejava ingressar na Ordem.
____No dia seguinte fui à Basílica de São Pedro, confessei os meus pecados, fui absolvido, rezei e voltei renovado na minha fé e ciente que Deus me havia perdoado. Com a ajuda da Ordem dos Franciscanos ingressei na Pontifícia Universitas Urbaniana do Vaticano e durante cinco anos preparei-me para o sacerdócio. Em 1939 e no limiar da Segunda Guerra Mundial fui ordenado sacerdote na Basílica de São Pedro. Era então Papa, Pio XII que havia sido sagrado em 2 de Março desse mesmo ano de 1939.

Após um pequeno intervalo, que aproveitou para beber um copo de água, o monge continuou:
____Continuei em Roma, já sacerdote franciscano, até o final da Guerra em 1945, então com 30 anos de idade. No final desse ano requeri transferência para este mosteiro, onde eu tinha começado a minha vivência espiritual e intelectual. Aqui voltei em Novembro de 1945 e aqui tenho permanecido desde então ... já lá vão mais de 60 anos.

O Padre Francisco levantou-se e foi olhar o jardim do claustro. Ficou em silêncio por cinco, dez minutos, como que a rezar. Eu respeitei o seu silêncio ... mas queria ouvir mais. A noite aproximava-se e eu sabia que teria de voltar, em breve, ao povoado onde me hospedava. O monge voltou a sentar-se e reiniciou a sua história.
____Nestes 60 anos de minha vida aqui no convento, dediquei-me a dar assistência espiritual aos povos das redondezas ... e até assistência material sempre que possível.
____A pequena igreja havia sido precariamente reconstruída e aí eu rezava missa todos os dias. A nossa Ordem estava reduzida a 50 velhos monges e sacerdotes e o convento em avançado declínio. Mesmo assim os nossos pequenos pomar e horta davam bem para o nosso sustento. Os paroquianos sempre nos socorriam com galinhas, coelhos ou lebres que caçavam e, vez por outra, ovelhas ou borregos. Leite e queijos nunca faltaram na nossa dieta. A Ordem tem votos de pobreza e assim nós vivíamos sob a graça de Deus. E aí está a história da minha humilde vida.
____Antes de sair – meu amigo – eu quero mostrar-lhe o que de mais precioso este convento tem.
Levantou-se e, vagarosamente, seguiu por um corredor escuro, acenando-me para o seguir. Parou de fronte de uma pesada porta de madeira de lei, com grandes dobradiças e fechadura de ferro. Tirou do bolso do hábito uma grande chave e abriu a porta. Era uma sala de grandes dimensões que duas largas janelas iluminavam. As paredes cobertas de estantes repletas de livros e manuscritos empoeirados.
____Esta é a nossa famosa biblioteca – informou o sacerdote – e que, por si só, tem a sua própria história. Hoje não dá para contar. Mas se o meu amigo estiver aqui amanhã cedinho, terei o maior prazer de relatar o que sei sobre este assunto. Nós, os monges sempre nos deitamos ao escurecer e levantamo-nos ao raiar do dia. Venha fazer-me companhia amanhã.
____Com certeza, padre. Sentir-me-ei honrado em fazer-lhe companhia amanhã e ouvir a história da sua biblioteca.
E assim desci o monte e retirei-me para os meus aposentos na hospedaria do povoado.

PARTE II - O SEGREDO

No dia seguinte, mal o sol despontou no cume da montanha, iniciei a minha escalada até ao velho convento. Antes, porém, parei na padaria do povoado e
enchi de café fresco a garrafa térmica que tinha comigo, comprei pão que acabava de sair do forno, manteiga, presunto e pus-me a caminhar. A vista era deslumbrante. O sol enchia de luz toda a serrania, dando-lhe um aspecto de ouro, que combinava com o verde do arvoredo e o amarelo e vermelho das flores campestres. O ar fresco da montanha cheirava a giestas e rosmaninho. Dava gosto caminhar pela encosta florida, ouvir o chilrear dos passarinhos e os balidos das ovelhas que pastavam nos vales verdejantes. Nesta região da serra, as aldeias e freguesias tinham uma beleza muito especial. Geralmente construídas nas encostas das serras, com seus telhados vermelhos, com seus parreirais verdejantes e jardins floridos, aquelas aldeias, tipicamente portuguesas, eram, sem dúvida, dignas de uma pintura de célebre artista.
Logo cheguei ao portão do convento. Encontrei o velho monge sentado num banco de pedra no jardim do claustro.
____Bom dia, padre. Um lindo dia, não é?
____Bom dia meu amigo. Graças sejam dadas por dias como este. Dá-nos mais vontade de apreciar a vida.
____Padre trouxe comigo o nosso desjejum.
____Meu amigo, eu já tive o meu desjejum. Leite e queijo de ovelha, que, graças aos meus já poucos paroquianos, nunca me faltam. Mas sentindo o cheirinho desse café fresco estou pronto para uma segunda refeição.
Coloquei uma toalha no banco entre nós, sobre a qual dispus o pão, o presunto e o café em canecas de barro que havia trazido comigo.
Ambos comemos com gosto, em conversa animada sobre o dia cheio de sol e as poucas rosas e crisântemos que ainda floresciam no jardim. Terminada a refeição e a descontraída fala, padre Francisco iniciou a conversa sobre o assunto que tínhamos em mente e era a razão deste nosso encontro.
­­­____Meu jovem amigo, vamos agora ao que mais lhe interessa: O segredo deste velho convento. Mas devo adiantar-lhe que tal segredo ainda não foi decifrado, apesar das muitas pesquisas e tentativas feitas pelas autoridades eclesiásticas e governamentais.
____Não vamos perder tempo repetindo toda a história das invasões napoleônicas na Península Ibérica, também chamadas de guerras peninsulares, de 1808 a 1814. Napoleão Bonaparte era o primeiro Cônsul da França, mais tarde consagrado Imperador dos franceses. O inimigo tradicional da França era a Grã-Bretanha , que com sua armada era, podemos dizer, a rainha dos mares e isso muito incomodava Napoleão. Em Portugal reinava D. Maria I, alcunhada de “a louca”, que afinal o era, e portanto incapacitada de governar o país. Por essa razão, o Príncipe D. João foi nomeado o regente.
Napoleão quis impor que Portugal, velho aliado da Grã-Bretanha, fechasse os portos aos navios ingleses, que aportavam principalmente a Lisboa e Porto, para se abastecerem. O Príncipe Regente recusou-se aceitar os ditames de Napoleão e exigiu que fosse aceite e honrada pelos paises beligerantes a neutralidade portuguesa
____Em outubro de 1807, pelo tratado de Fontainebleau a Espanha, governada por Carlos IV e seu favorito, Godoy, concordou em apoiar a França contra Portugal. Um exército francês, comandado pelo General Andoche Junot, ocupou Portugal em Novembro de 1807. Foi aí que D. João, Regente, e sua família decidiram retirar o governo para o Brasil.
____Li em tempos, padre, que chegaram a retirar-se para aquele país 15.000 pessoas e que a saída do Cais do Restelo foi um verdadeiro caos. Foram abandonados no cais e nos armazéns do porto caixas e mais caixas contendo verdadeiras riquezas, logo abocanhadas pelo povo e pelos franceses que entravam em Lisboa.
____É verdade! A Grã-Bretanha mandou uma verdadeira esquadra para acompanhar e proteger os navios portugueses. Continuando: A manobra de Napoleão era garantir que a Espanha passasse ao domínio da França. Com o pretexto de enviar reforços para Junot, um numeroso exercito francês entrou em Madrid em Fevereiro de 1808, sob o comando de Joachim Murat.
Carlos IX abdicou ao trono espanhol, a favor de Joseph Bonaparte. Em 15 de Junho de 1808, Joseph Bonaparte foi proclamado rei da Espanha.
E aqui começaram na Espanha as insurreições contra as tropas francesas. Essas insurreições alastraram-se até Portugal e os portugueses, auxiliados por tropas inglesas, comandadas pelo Duque de Wellesley (mais tarde duque de Wellington) desbarataram o exército francês em várias batalhas, tanto em território espanhol, como em Portugal.
Mas toda esta história o meu amigo conhece bem. Foi meu intento, simplesmente, criar um cenário para depois melhor explicar o que se passou na Península Ibérica.
A população espanhola rebelou-se em todo o país, seguida pelo povo português. Criou-se assim um novo capítulo na história das guerras, até então com exércitos disciplinados, fardados, bem treinados. Na nossa Península as guerrilhas atacavam de outra maneira. Sabendo que as tropas estrangeiras teriam que viver à custa do próprio país invadido, elas careciam de linhas de suprimentos alimentícios e até de forragem para os cavalos e muares que puxavam os canhões e as diversas carroças de munição e alimentos, etc.. Assim as guerrilhas puseram fogo nos campos e nas povoações, nada deixando para os soldados de Napoleão, que famintos, sujos e rotos, muitas vezes de pé descalço se vingavam do que restava dos povoados, roubando, estuprando as mulheres, assassinando os velhos e crianças. Esta foi a política do então Ministro da Guerra Miguel Pereira Forjaz, conhecida como “scorched earth”..Wellington referia-se a este ministro como o único estadista da Península Ibérica. Os pastores retiraram a maioria de seus rebanhos para as serranias que eles conheciam como as palmas de suas mãos, sabendo bem que os animais que o inimigo viesse a encontrar, seriam logo sacrificados para aliviar a fome da soldadesca. Pela região montanhosa, sabia-se bem do que os franceses eram capazes de fazer.
____Por esse motivo os morgados da região, os ricos agricultores, com casas senhoriais e riquezas de moedas de ouro, jóias outras, castiçais e baixelas de prata, prepararam-se logo para guardar essas riquezas em abrigos, e muitos foram os que, de imediato, deixaram suas casas aos cuidados de velhos feitores e fugiram para praças como a do Porto, onde estariam mais seguros. Ainda outros, aproveitando navios ingleses que aportavam a Lisboa e Porto, seguiram para a Inglaterra, ou até para o Brasil
____Eu também li muito sobre isso, padre. Foi uma guerra que custou caro à Espanha e Portugal, e não fora o auxilio dos ingleses e o heroísmo das tropas portuguesas essa guerra teria durado muito mais tempo.
____É verdade! Este convento tinha somente uns 20 monges, pois 65 anos antes o Marquês de Pombal havia determinado que os conventos fossem fechados e as riquezas destes passassem para o erário real. No entanto, escaparam alguns conventos franciscanos pela sua notoriedade de pobreza imposta pelos regulamentos da Ordem. Segundo meu tio-avô me contou, era abade, em 1811, D. Jorge de Lima, de nobre família do reino. Os morgados e abastados lavradores vieram pedir a D. Jorge de Lima que fosse o guardião de suas riquezas. Inicialmente o abade recusou, mas tanto foi pressionado que acabou aceitando, desde que fosse construída uma grande arca de boa madeira, e o ouro, as jóias e prata ali fossem guardados. Os castiçais, porém, tiveram que ficar de fora e alguns colocados nos altares mores das capelas e igrejas e da nossa própria igreja. Tudo isso foi, mais tarde, roubado pelas tropas de Napoleão, que saquearam, queimaram e usaram as igrejas e capelas como estábulos .... enfim todo o tipo de destruição e atrocidades.
D. Jorge de Lima impôs algumas condições aqueles que queriam que o convento guardasse os seus bens mais preciosos: Que a arca fosse trazida após a meia noite, á porta do jardim, na parte de trás do convento; que os homens que a trouxessem fossem obrigados a jurar absoluto segredo sobre o assunto e que a arca fosse acorrentada com um forte cadeado, A chave desse cadeado que a levasse um dos morgados que sairia para o Porto ou para a Inglaterra. Aqueles homens que a carregaram até á porta traseira do convento foram logo dispensados. D. Jorge de Lima e quatro monges, jurados ao silencio, se dispuseram então a esconder a arca. Onde, não sabemos ainda.
____E D. Jorge de Lima nunca informou sobre o esconderijo da arca, nem mesmo em seu testamento?
____Não, porque ele foi assassinado poucos dias depois dessa noite pelos franceses. Eu lhe conto. Não levou muito tempo até a chegada das tropas esfarrapadas e famintas de Napoleão. Saquearam as igrejas e capelas das redondezas, roubaram e incendiaram. Seja como for, um belo dia, um destacamento deles apareceu à porta do convento. Queriam alimentos e objetos de prata e ouro que o convento possuía. Foi-lhes primeiramente mostrada a capela. Logo eles se apoderaram de tudo que lhes parecia de valor, incluindo os castiçais de prata que haviam pertencido aos senhores das redondezas e – logo incendiaram a capela. Em seguida, já à porta do convento, perguntaram pelo abade. D. Jorge de Lima logo os recebeu. Queriam verificar o que havia de valor no convento e os alimentos de que os monges dispunham para lhes serem entregues de imediato. D. Jorge respondeu-lhes que a Ordem dos Franciscanos é devotada à pobreza e ali, nada, ou quase nada, lhes poderia interessar. Dirigiram-se, em tumulto, à cozinha e jardim e rapinaram tudo o que poderiam comer, até mesmo as fruta, como maçãs, ainda verdes. Nisto chegou o que parecia ser um sargento que chamou um pequeno grupo de soldados e com eles entabulou uma animada conversa. Procuraram D. Jorge e ordenaram-lhe que abrisse a porta da biblioteca. O abade aquiesceu e abriu a pesada porta, mostrando-lhes que ali não havia senão livros e documentos. O tal de sargento indagou onde estavam as jóias dos que fugiram da região. D. Jorge limitou-se a dizer-lhes que tanto no convento como na biblioteca, não havia jóias ou outras riquezas escondidas. Novamente o sargento, em tom ameaçador, perguntou pelas jóias e que se não lhes fossem entregues de imediato queimariam a biblioteca inteira. O abade embargou-lhes a entrada, colocando-se na soleira da porta e insinuando que trancaria a pesada porta. A uma ordem do sargento dois soldados apontaram as suas armas ao peito de D. Jorge e este caiu moribundo. A tropa assassina acendeu archotes, pronta a entrar e incendiar tudo.
____Contou-me meu tio-avô que então parece que aconteceu um milagre. De súbito entrou um coronel de cavalaria que inquiriu o que a tropa ameaçava fazer. Ao tomar conhecimento do intuito dos soldados, deu ordens imediatas para que todo o destacamento se retirasse do convento. Seguidamente chamou os monges para retirar o corpo do abade assassinado. Apresentou-se então como D. Henri Anjou de Camberlet, visconde de Tarbes e senhor de Foix, apaixonado por literatura, história e filosofia antigas e, por isso, não deixaria nunca que uma biblioteca como essa fosse destruída. Por essa razão colocaria de guarda á porta da biblioteca quatro soldados de seu próprio destacamento para segurança da biblioteca.
____Dois dias depois iniciaram-se as exéquias do funeral de D. Jorge de Lima, na própria biblioteca, uma vez que a capela do convento estava em ruínas. A estas cerimônias compareceu o coronel francês. O falecido abade foi sepultado no mausoléu dos monges no sub-solo do convento.
____Nos dias seguintes o coronel francês veio ao convento e, pedindo desculpas aos monges, permanecia na biblioteca a tarde inteira, vasculhando documentos antigos e livros em latim e grego. Era, sem dúvida, um intelectual clássico e a presença dele no convento mantinha afastada a soldadesca francesa.
____Cerca de um mês depois o coronel se despedia amigavelmente de todos os monges, agradecendo a oportunidade que teve de fazer importantes pesquisas na biblioteca e recomendando que guardassem bem aquele tesouro de literatura e história clássicas. Não havia mais de que se preocuparem pois todas as tropas haviam sido retiradas daquela região.
____Eis, pois, meu amigo o que lho posso contar sobre a história deste mosteiro.
____Após as guerras peninsulares nem todos os morgados e outros senhores voltaram às suas terras. Os poucos que retornaram às suas propriedades preferiram calar-se sobre a arca, até porque as tropas inglesas ocupavam Portugal e era conveniente nada fazer para não levantar qualquer suspeita sobre o que fora arrecadado por D. Jorge de Lima. Dois dos monges que auxiliaram o abade a esconder a arca, faleceram, sem nunca divulgar o que havia acontecido naquela noite da primavera de 1811.



III PARTE - A ESTRATÉGIA PARA DESVENDAR O SEGREDO

____Então, padre, o que fazer agora?
____Por mim, nada faria. No entanto, sabendo que o meu amigo gostaria de desvendar o segredo, ponho-me à sua disposição.
____Padre, temos que estudar, primeiramente, os passos, ou, melhor, quais as razões do abade na escolha do esconderijo. Mas vejo que é a hora do almoço. Quer dar-me o prazer de almoçar comigo na pousada onde sou hóspede? Talvez lhe custe caminhar até lá, mas como é descida, “todos os santos ajudam” e, na volta ao convento, prometo que trarei vossa reverência no meu velho OPEL que ainda se presta para subir esta encosta até aqui.
____Então, meu jovem amigo, aceito com sinceros agradecimentos e vamos ao almoço.
A sala de jantar da pousada tinha largas janelas, por onde se podia admirar, á direita as serranias, cheias de sol, arborizadas. Aqui e ali, podíamos ainda ver os rebanhos de ovelhas pastando, sempre vigiadas pelos pastores e pelos grandes cães de raça pastores alemães, creio que seriam. Numa encosta, as vinhas repletas já de cachos negros e brancos, a verdadeira riqueza desta região alto duriense. Das janelas da esquerda víamos o grande vale, com seus pomares, com os milhais e trigais,. Este um campo de ouro, aquele um manto de verde. Em pouco tempo viriam as colheitas e as verdadeiras festas dos povoados.
Na sala as mesas toscas estavam cobertas com toalhas de linho branco, que ainda cheiravam ao sol que as secara e ás flores silvestres sobre as quais haviam sido estendidas.
Perguntamos ao nosso anfitrião o que ele recomendava para nosso almoço. Sem hesitar ele sugeriu, Sopa Montanheira e Chanfana à Senhora da Serra, acompanhada de uma garrafa de vinho regional Terras de Alceu, destas terras durienses.[1] Saboreamos com agrado esta típica refeição montanhesa , após a qual resolvemos voltar ao jardim do convento para discutir os nossos planos sobre como descobrir o segredo de D, Jorge de Lima. O velho OPEL levou-nos sem problemas ao convento. No jardim escolhemos um banco á sombra de uma velha figueira. Bem padre, vamos, primeiramente “esmiuçar” a vida de D. Jorge de Lima, o seu dia a dia, o que lia – e isto é importantíssimo – e que tipo de homem ele era.
____D. Jorge era um homem simples, gostava de conversar com os lavradores que vinham á igreja e saber deles como iam as colheitas, isto no verão, ou as semeaduras, na primavera. Estas conversas com os paroquianos eram sempre de manhã, após ter rezado a missa. Raras vezes descia até aos povoados e quando o fazia era mais para visitar os doentes ou os velhos que, sentados nas soleiras de seus casebres, esquentavam-se ao sol.
Após o esparso almoço, seguia para a biblioteca e ali passava a tarde inteira a ler e escrever. D. Jorge era um poliglota, e como já lhe disse falava latim e grego, espanhol, inglês, italiano e alemão. Ultimamente estudava até aramaico, o idioma de Cristo. Lia e escrevia. Gostava muito especialmente de ler as obras de Aristóteles, e outros filósofos gregos, como Platô, etc. Lia também os poetas romanos, tais como Ovídio, e até algumas vezes eu o ouvi recitar, em português, alguns dos poemas daquele grande poeta. Entre os padres escolásticos lia e relia Tomás de Aquino e Santo Agostinho, cujos diálogos filosóficos, D. Jorge comentava nos seus próprios escritos. Talvez custe a acreditar mas um dos livros que tinha lugar preferido na sua banca de trabalho era a obra completa de Shakespeare.
____D. Jorge escrevia muito, disse há pouco o senhor. E esses escritos onde se encontram agora?
____Estão todos numa pasta de couro preto, na biblioteca. Eu já os li e reli várias vezes e nada encontrei que pudesse ser a chave do segredo. Aliás, meu amigo, não seria típico de D. Jorge deixar nesses documentos algo sobre o segredo.
____E porquê padre, indaguei?
____Inteligente como ele era, ele desconfiaria que tais documentos seriam os primeiros a serem pesquisados. Aliás, é muito estranho o facto que, aparentemente, nunca o abade mencionou o assunto para seus superiores hierárquicos. Na sua correspondência particular nada, absolutamente nada. Dá a impressão que o que se contava da arca e seus tesouros não é senão história da carochinha...
____Mas se aceitarmos isso, então como surgiu a lenda que se perpetuou até hoje? Até as tropas francesas tiveram conhecimento dela?
____Bem, quatro camponeses vieram com seu carro de bois trazer a arca até à porta do convento. Apesar de terem jurado silêncio, quem é que diz que realmente honraram esse juramento? Não teria um deles contado à esposa e esta às suas comadres e daí por diante? Ou não teria sido até um dos senhores das terra e casas ricas que tivesse encarregado o seu feitor de procurar saber se alguns de seus companheiro havia já voltado ás suas casas e requerido os seus bens sob a custódia dos monges? Em terras pequenas como estas da região é muito difícil – senão impossível – guardar segredos por muito tempo.
____E o que vossa reverência acredita?
____Olhe, falando-lhe francamente, eu acho que existiu a dita arca, repleta de ouro e jóias. Não sei se foi encontrada e roubada, face às muitas pesquisas que foram feitas através destes anos todos.
____Fale-me sobre essas pesquisas.
____Como já lhe havia dito ambas as autoridades, da Igreja e do Governo, além do povo, viraram e reviraram as terras que cercam o convento. A biblioteca foi motivo da maior procura, no sub-solo os mausoléus dos falecidos abades foram abertos, houve paredes que, por serem mais largas do que as outras foram derrubadas, enfim não deixaram nada, dentro e fora do convento que não tivesse sido investigado. Vieram dois engenheiros civis do Ministério do Interior para verificar se os planos da construção da igreja e do convento davam qualquer vestígio de paredes falsas, túneis secretos, etc. Mais uma vez nada foi descoberto. E o segredo continua!
____Padre, o sr. é de opinião que a arca foi levada para fora do perímetro do convento e suas propriedades ...
____Continuo da mesma opinião.
____Assim sendo, e eu partilho dessa opinião, pergunto: - qual a distância que cinco monges poderiam carregar a arca, mesmo até descansando uma ou duas vezes? Um quilometro, ou dois? Vamos, primeiramente delinear o perímetro do convento e depois tentar concluir qual seria o lado mais certo e seguro que os monges e, claro, D. Jorge acharam por bem escolher. Muitas vezes a solução de um problema está na nossa frente só que nós achamos que ela é fácil de mais para ser verídica.
____E então qual será o nosso próximo passo? – indagou o padre.
____Olhe, acredito que os monges não carregaram a arca nos ombros, mas sim usaram a carreta que tinham para serviço no jardim. Dessa forma, teriam que puxá-la por trilhos não muito acidentados, ou íngremes. Temos que começar por aí, isto é, descobrir o possível trilho que os monges usaram na época.
____Concordo, meu caro amigo, mas hoje já está ficando tarde para tal empreitada. Sugiro que continuemos amanhã de manhã.
____De acordo, padre. Retiro-me então e aqui estarei cedo, para tomar o desjejum com vossa reverência e prosseguir com nossos planos.

Levantei-me ao raiar do dia, passei pela padaria para comprar pão, manteiga, café e leite e, no Opel, subi até o convento. Encontrei o monge sentado em um dos bancos do jardim, a ler o seu breviário.
____Bom dia, padre. Sei que o sr. já tomou o seu habitual desjejum, mas também não vai resistir a um pão ainda quente do forno e, muito especialmente a um café fresquinho.
____Lá isso é verdade!
O dia era um dia de verão, mas no jardim do convento, o calor era suportável.. Falamos sobre amenidades enquanto saboreávamos aquela refeição.
No final, passamos ao assunto da arca desaparecida.
____Olhe, padre, para começar com a nossa tarefa, gostaria, primeiramente de visitar a cela que era do abade D. Jorge.
____Que é a minha e que o senhor já conhece. Mas vamos lá.
A cela tinha uma cama estreita de madeira, um colchão de palha de trigo, que o monge disse que era renovada todos os anos, uma mesinha de cabeceira, uma escrivaninha e cadeira de sólida madeira e um tripé de ferro que sustentava uma bacia. No chão uma jarra de água.. Na parede, por cima da cama, um crucifixo de madeira, preto.
____Esta mobília chegou a ser desmontada pela autoridade do governo, para verificar se as pernas não era ocas, se havia algo falso, nas gavetas. Nada foi encontrado. No entanto, há algo que eu até já tinha esquecido. Entre os papéis de D. Jorge, guardados naquela pasta de couro preto que guardamos na biblioteca, há um rascunho de uma carta, não acabada dirigida a D. Francisco de La Cruz, abade que foi do convento dos franciscanos em Madrid. É escrita em latim e parece que era intuito de D. Jorge solicitar a seu colega espanhol a confirmação dos crimes cometidos na península pelas tropas francesas. Pelo menos é o que me parece. No topo da página há uma frase em latim que não me sai da cabeça: VEL CAECO APPAREAT, que eu traduzo como “será (é) aparente até para um cego”. Não consigo compreender porque está escrita nessa folha de papel, mas algo me diz que tem a ver com o segredo da arca.
____Creio, padre, que D. Jorge simplesmente pegou a primeira folha de papel que estava ali, ao seu alcance, para o rascunho da carta para D. Francisco de La Cruz. Por outro lado, essa frase tinha um significado que ele quis passar adiante. Que a chave do segredo está nesta cela à vista de todos.
____Mas onde? Tudo aqui já foi esmiuçado, em todos os detalhes e sem sucesso.
____Padre, aquele crucifixo na parede ... olhando com atenção parece que alguma coisa está errada. Veja bem ... não lhe parece que a perna direita está um pouco fora do tronco de Cristo, ou, pelo menos, está torta?
____Realmente, o meu amigo tem razão. Nunca tinha reparado. E com este comentário o monge retirou o crucifixo da parede e examinou-o detalhadamente. ___ Já sei, a perna foi retirada e novamente colada ao tronco, mas não alinhada como devia ser.
E ao dizer isso o padre puxou pela perna, esta cedeu e logo verificou que era oca. Dentro havia um pequeno rolo de papel
Nele estavam três frases em latim: A primeira, OMNEM MOVERE LAPIDEM, a segunda, A FRONTE PRAECIPITIUM, A TERGO LUPUS; a terceira MULTIS ICTIBUS DEJICITUR QUERCUS. O padre logo traduziu: A primeira quer dizer “move todas as pedras, não deixes nenhuma não virada” Seria melhor dizer “faz de tudo, tenta tudo, move céus e terra”. A segunda, “Um precipício na frente, um lobo por traz”; Esta é fácil de entender. A última “São necessários muitos golpes para derrubar o carvalho”
____Padre, desconfio que não se trata de árvore alguma, mas talvez uma rocha, ou uma parede.
____Concordo.Temos agora a chave da porta ... falta somente encontrar a porta.
____São horas do nosso almoço. Vamos descer até à pousada e saborear um bom almoço. Está de acordo, padre?
____Mas sem dúvida. Será um prazer.
Após um delicioso repasto... diga-se de passagem que o cozinheiro da pousada é um chef de primeira categoria, voltamos novamente ao convento. Sentamo-nos no recanto de uma das arcadas do claustro, onde a temperatura era mais amena. Iniciei eu a conversa
____Padre, dei ao assunto dos trilhos bastante atenção e conclui que só havia um caminho a seguir: ir pelo sul. Veja bem, ir pelo norte ou pelo oeste poderiam encontrar patrulhas francesas. Pelo leste estavam no descampado do vale. Não havia outra opção senão o sul. Entendo que D. Jorge e os quatro monges serviram-se de uma carreta de duas rodas que o convento possuía, não é verdade? O trilho do sul tinha várias inconveniências, sem dúvida, entre as quais teriam que atravessar o córrego, conhecido como o córrego do Tião, que naquela altura do ano, nos meados de abril, em plena primavera, recebia as enxurradas das montanhas e portanto as suas águas chegavam a transbordar em certos lugares. Isto foi o que me disseram na pousada
____È verdade, na primavera o córrego mais se assemelha a um rio caudaloso. Assim eles seguiram o trilho, tendo o riacho á sua esquerda. A pergunta que se pode fazer é porque não seguiram á direita do córrego? Ao sair do perímetro das terras do convento, a poucos metros de distância encontramos o riacho á nossa esquerda. Além do mais, o lado direito do rio é praticamente intransitável, tais são os obstáculos das margens: morros, areais, e floresta até às margens do riacho. Estamos agora no verão. Eu sei, mais ou menos, onde fica o precipício, com o lobo, não atrás, mas á esquerda.. Acontece que um braço da serrania acaba ali e por isso o precipício. A floresta ao lado é habitada por alcatéias de lobos. Estou em crer que deve haver ali uma gruta, até agora desconhecida, onde a arca deve estar guardada. Agora tudo faz sentido. E, assim, creio que havemos desvendado o segredo, tão bem guardado todos estes anos. Alvíssaras nos devem ser dadas, quando anunciarmos a nossa descoberta.
____Concordo com vossa reverência. Mas devemos controlar a nossa impaciência até amanhã. Devido ao adiantado da hora, não podemos iniciar a nossa caminhada hoje. Paciência!!. Tratarei de empacar um almoço para nós e partiremos logo após o desjejum..

IV PARTE – DESVENDE-SE O MISTÈRIO

E assim fizemos. Caminhamos pausadamente – afinal o monge tinha 91 anos, apesar de uma evidente robustez – por uns cinco quilômetros, sempre á margem do córrego.
____Lá está, padre, o braço da montanha, o precipício e o pinheiral. Teremos que atravessar o riacho aqui, afinal pouca água ele agora comporta e ver do outro lado onde está a porta, direi a gruta, onde, acredito, estará a bendita arca.
A travessia do riacho não demorou mais que uns cinco minutos. Subimos a margem, um pouco íngreme e fomos examinar o paredão. Não se via nada mais que trepadeiras e outros arbustos selvagens na face da rocha.
____Padre Francisco, o melhor é o senhor descansar ali debaixo daquela árvore frondosa, que eu, com o facão e o machado que trouxe vou tentar limpar parte daquela vegetação para verificar o que temos por trás.
Foi um trabalho árduo que deixou as minhas mãos com várias bolhas e a camisa ensopada de suor. Na face da rocha havia realmente uma parede de pedras soltas que tapavam, a meu ver, a entrada do que parecia ser uma gruta. A maior parte das pedras eram grandes demais para eu as soltar. Mas no topo, á direita, havia uma pedra que eu poderia tirar e assim o fiz com sucesso. Peguei a lanterna elétrica que também havia trazido e iluminei o interior da gruta. Nada havia dentro, senão umas caixas que me pareceram ser de munições. De certo esta gruta teria servido de esconderijo e paiol de munições para as guerrilhas portuguesas durante a guerra contra os franceses. De arca nem vestígio.
____Padre, não tem arca nenhuma aqui dentro. Aliás os monges que trouxeram a arca, teriam muito trabalho para retirar as pedras que fecham a abertura da gruta, para poder passar com a arca. E como fechar em seguida essa abertura? Estou em crer que, apesar de ser o seu intento esconder a arca aqui, eles não esperavam encontrar tamanhas dificuldades.
____E ficamos com a pergunta: Onde foi escondida a arca? Agora não temos mais vestígios. O melhor é voltarmos para a outra margem, saborear o nosso farnel e pensar sobre o assunto.
Após a refeição ficamos em descanso. O calor era quase insuportável e não poderíamos voltar para o convento naquele mormaço.
____Diga-me, padre Francisco, aonde vai, digamos, desaguar este riacho?
____Na lagoa que fica a uns quilômetros daqui, ao sul. Essa lagoa, de águas limpas, é bastante profunda, pois é uma velha cratera vulcânica. O povo conhece-a como a lagoa das lavadeiras, pois muitas das mulheres dos arredores vão ali lavar as suas roupas. No entanto o nome oficial é a Lagoa da Santa. Diz a lenda que no século XV foi encontrada ali, em um nicho da rocha, uma estátua da Virgem Maria. A Igreja nunca se pronunciou sobre isso, tanto mais que passados alguns anos, numa grande enchente, a estátua desapareceu. Os lavradores bombeiam água da lagoa para irrigar as suas terras. Porém a água nunca falta. Suspeita-se que também deve receber águas de algum rio subterrâneo, assim como deve alimentar outro rio subterrâneo. Nunca foi investigado esse assunto pelas autoridades.
____Bem, padre, teremos que pensar para onde teria D. Jorge e os seus quatro monges levado a arca. Nada mais há a fazer por agora
Voltamos ao convento, aonde chegamos quase ao por do sol. Durante a caminhada uma idéia foi-se formando na minha mente.
____Padre, amanhã vou alugar um cavalo e vou cavalgar por todo este trilho até à Lagoa. Parece-me que D.Jorge e seus monges, ao querer atravessar o córrego, que nessa época devia estar bastante caudaloso e de grandes correntezas sofreram um acidente. Eu quero ver se encontro provas convincentes desse presumível acidente. O senhor. lembra-se de haver nos anais do convento algo sobre esse acidente? Afinal poderia ter havido até morte de um dos monges por afogamento?
____Nunca eu soube de nada e nunca encontrei registro algum sobre isso. Também nunca me constou que tivesse havido morte acidental de algum monge. Mas a sua suposição é lógica e possível de ter realmente acontecido. Vá amanhã com Deus e boa sorte.
____Obrigado padre Francisco. Boa noite.
Ao amanhecer do dia seguinte eu já estava a pé e já havia tomado o café da manhã. O cozinheiro da pousada preparou-me uma cesta de comida para eu levar: pão, presunto, queijo, uma garrafa de vinho, fruta da época (melão, maçãs, uvas, figos) e uma torta de pêssego. Sem dúvida que fome não passaria. No alforge levava algumas ferramentas que talvez me fossem necessários: um facão, uma machadinha, um martelo, uma lanterna, luvas, e botas de borracha. Estava bem munido de tudo que pensei ir precisar. Não me faltava o inseparável caderno de papel e alguns lápis.
Montei a cavalo que aluguei numa estrebaria próxima à pousada e que me pareceu ser dócil e bastante forte para a nossa jornada. O animal parecia conhecer o caminho que iríamos seguir e, sem que eu tivesse de o guiar, enveredou pela estreita rua que nos levaria ao início da trilha à margem do córrego do Tião. A trote passávamos rápido pelos lugares que eu já conhecia.e em vinte minutos, mais ou menos, estava de frente do lugar que o monge e eu havíamos explorado no dia anterior, procurando pela gruta, onde, assim pensávamos, estaria escondida a arca. Só que, apesar de termos encontrado a gruta, a arca não existia. Desmontei, prendi as rédeas do cavalo a uma pequena árvore e fui examinar os contornos das margens do riacho.
A vegetação das margens e as marcas nas rochas logo me levaram à conclusão que durante as cheias da primavera as águas teriam subido entre metro e meio e dois metros acima do nível normal do córrego. Uns 200 metros mais ao sul havia uma curva do riacho e a partir daí o riacho afunilava e as águas corriam mais velozes. Formava-se assim um desfiladeiro e o leito do rio, era bastante acidentado. Em alguns lugares, havia quedas de águas formando assim pequenas cataratas. Dava para imaginar bem como seriam estas cataratas na época das enchentes e a força da correnteza das águas.
Precisava agora de encontrar provas da suspeita que se firmava na minha mente. Alguma coisa me chamou a atenção do outro lado do rio. Era um caramanchão de pedaços de madeira, trepadeiras e alta vegetação. Atravessei o rio e fui verificar. Logo que me aproximei notei que havia duas peças de madeira, aliás já bastante carcomidas que se assemelhavam ao estrado de uma carreta. Mas, mais interessante ainda, era uma roda de carreta. Só sobrava a parte de ferro, eixo e arco,. O madeiramento tinha sumido. Mas não havia mais dúvidas. Era uma das rodas da carreta.
Tornou-se bem claro o que aconteceu: Naquela noite escura, D. Jorge de Lima e seus quatro ajudantes, mesmo iluminados com um ou dois archotes, não se aperceberam da correnteza e profundidade do córrego. Era necessário atravessar ali o riacho, para atingir a gruta e esconder a arca. Desceram a carreta para as águas, mas logo perderam o controle dela. A correnteza era mais forte do que eles e a carreta deslizou pela água, direta á margem rochosa do lado esquerdo do riacho e aí se quebrou, deixando livre a arca que boiou e deslizou rápida na corrente, rumo à foz do Córrego do Tião, onde, sem dúvida, já cheia de água, afundou.
Peguei de novo o cavalo e cavalguei até onde desemboca o riacho. Era difícil calcular onde a arca teria afundado, uma vez que não tinha conhecimento de seu tamanho e peso. Mas, mesmo assim, avaliando agora as águas mansas que entravam na lagoa, cheguei à conclusão que naquela primavera e com as águas quase dois metros acima do nível normal, a arca deveria ter afundado de 100 a 200 metros da margem. E era aí, que deveriam começar os trabalhos para achá-la e retirá-la.
Não cabia em mim de alegria. Havia, finalmente, desvendado todo o segredo. E que grande reportagem isso não dava.
Sentia-me cansado e faminto.
Ali perto havia uma grande figueira ainda com alguns figos maduros. Os passarinhos voavam ao seu redor, a bicar essa fruta. Que manjar não devia ser para eles. A sombra dessa árvore era o melhor lugar para saborear a cesta de comida que havia trazido da pousada e depois descansar. Primeiramente tirei a sela e as rédeas e freio do cavalo e deixei-o livre para pastar na relva verde e tenra das margens do riacho. Sentei-me encostado ao tronco da figueira, comi e bebi com vontade. Saciada a minha fome veio-me uma preguiça sonolenta. Ajeitei a sela para servir-me de travesseiro e adormeci.
Quando acordei, pelo meu relógio de pulso eram quatro horas da tarde. O cavalo também se valeu da sombra da árvore e ali quietinho parecia dormir em pé.
Eram horas de voltar para a pousada, apesar de que era minha obrigação passar primeiramente pelo mosteiro e por o velho monge a par do que havia descoberto e da opinião que tinha sobre o segredo da arca.
____Pois aí tem, em detalhes, padre Francisco, como, afinal, nós desvendamos todo o segredo e a lenda da arca. Mas ainda há certos detalhes para esclarecer. Por exemplo: como D. Jorge de Lima sabia da existência dessa gruta?
____Sobre isso eu posso responder, retorquiu o monge. Encontrei, há dois dias, dentre documentos, um velho mapa desta região. Estava praticamente no topo dessa velha papelada, o que parecia indicar ter sido usado mais recentemente do que o resto.. Esse mapa, que ainda conservo, indicava que naquela locação havia realmente uma gruta. Isso deu a D. Jorge a solução do problema que enfrentava, ou seja, aonde esconder a arca.
____Mas ainda há outro detalhe não esclarecido. Porque D. Jorge e seus monges não sabiam do alto nível das águas do riacho e das correntezas, que, certamente, iriam oferecer-lhes sérios problemas?
____Não sei. Parece-me, no entanto, que D. Jorge teria escolhido os mais fortes monges para o ajudar e aí teria confiado de mais nas forças dos cinco, incluindo ele, que também era um homem forte. E agora pergunto eu, meu jovem amigo, e qual o nosso seguinte passo?
____Bem, padre, para retirar a arca do fundo da lagoa somente órgão do governo. Vão ser necessários equipamentos sofisticados, homens experientes, e isso o governo os tem. Tenho um primo meu, contra-almirante Eduardo Ramalho Menezes da Silva que é vice-ministro da Marinha. Tenciono seguir para Lisboa amanhã, expor-lhe o caso e pedir-lhe que o Governo se encarregue de extrair a arca do lodo da lagoa.
____Parece-me, meu caro Francisco, que esse é o passo certo. Vá,.vá a Lisboa. Fico rezando por si e pelo sucesso da sua reunião com seu primo.

Na manhã seguinte, no velho Opel, dirigi-me para o aeroporto de Bragança que não era muito distante, e lá peguei o primeiro vôo que havia para Lisboa. Felizmente havia um vôo nessa manhã.
Chegado a Lisboa, peguei um táxi para levar-me ao apartamento que eu tinha, no bairro de Belém. Era uma residência de dois dormitórios, no terceiro andar de um prédio que não tinha elevador. Havia comprado esse imóvel já faziam quatro anos e que me servia muito bem, quando estava em Lisboa. Eu estava com 35 anos, mas ainda não tinha vontade de me casar, talvez por não ter encontrada a mulher, por quem me apaixonasse . Galguei as escadas numa corrida e logo que entrei no apartamento, peguei o telefone para chamar meu primo o Contra-Almirante Eduardo Ramalho. Quando lhe foi anunciado que era eu, ele, imediatamente atendeu. Combinamos então uma reunião para a manhã do dia seguinte, lá pelas dez horas.
Em seguida telefonei para o Dr. Freitas, co-proprietário e editor chefe de um dos mais importantes diários do país. Simplesmente adiantei-lhe que tinha uma sensacional reportagem e que gostaria de a discutir com ele. Marcou uma reunião comigo para as 18 horas do dia seguinte.
Nada mais havia a fazer.
Na manhã seguinte, ás dez em ponto, estava no gabinete do meu primo. Contei-lhe detalhadamente o que eu e o velho monge havíamos descoberto. Mostrou-se logo bastante interessado e confirmou que a Marinha tinha como descobrir o lugar preciso onde estaria a arca. Ele próprio comandaria todo o trabalho.
____Olha, Francisco, temos aparelhos sofisticados de sonar, etc. que de um helicóptero nos dará a posição exata da arca. Depois é só enviar mergulhadores, colocar uma larga mangueira de sucção e pronto. O que ainda me preocupa e ainda não tenho a solução, é como evitar os jornalistas, os fotógrafos, a TV, etc. Sobre isso vou estudar, com meus auxiliares, uma solução convincente. Depois te falarei. A propósito, quando viajar para o norte tu poderás vir conosco. Creio que sairemos daqui no principio da próxima semana.
A reunião com o Dr. Freitas, Editor Chefe do jornal estava marcada para as 18 horas. Tinha agora algumas horas pela frente para tratar de assuntos mais pessoais. Primeiramente, passei pelo correio para passar um telegrama ao meu amigo monge, avisando-o que tudo estava indo muito bem, mas que só na semana seguinte estaria de volta para vê-lo e pô-lo a par de tudo. Não sabia se o telegrama lhe seria entregue, uma vez que a transmissão era feita através dos correios de Bragança e eu não me recordava ter visto sede de correios em qualquer freguesia das redondezas.
Almocei num restaurante da baixa, que costumava freqüentar, e dali fui procurar alguns amigos jornalistas de vários diários da capital. Quando indagado do que fazia, limitei-me a dizer que estava a escrever um livro de contos. E nada mais contei.
Ás 18 horas em ponto apresentei-me no escritório do Dr, Freitas. Fui recebido afetuosamente pelo meu velho amigo, que logo indagou por onde eu havia andado, o que me trazia ali, etc. etc. Pacientemente expliquei-lhe a razão principal da minha visita, sem contudo contar alguns detalhes, como, por exemplo a minha reunião com o meu primo contra-almirante.
O Dr. Freitas, mandou vir chá para nós e esperou que fosse servido. Quebrou então o silêncio, para me dizer:
____Olha, meu querido Francisco, tu. és um jornalista de primeira linha. Eu, porém, não estou disposto a publicar a tua reportagem. Primeiro, porque, pelo que me contaste eu vejo dois problemas. A tua história não é própria de reportagem ou de folhetim de jornal. É muito mais interessante e de mais valor, tu publicares, um livro. Eu estarei pronto a editá-lo.
Segundo, ainda não tens um final para nos contar. Foi achada a arca? Não! E se for achada, pode constatar-se agora que contém realmente um verdadeiro tesouro?? Ainda não temos esses detalhes.
Assim, o que te posso recomendar é que comeces a escrever o livro e aguarda os acontecimentos. Por agora posso afirmar-te que teremos muito gosto em publicá-lo, pois tenho a certeza que será um “best seller” imediatamente.
Concordei com o Dr. Freitas.Ele estava com a razão e eu seguirei o seu conselho.
No dia seguinte, logo de manhã cedo, comecei a organizar todas as minhas anotações, de forma a iniciar o livro. A primeira pergunta que me fiz foi: qual o título; O SEGREDO DO VELHO MONGE; A ARCA PERDIDA; O TESOURO PERDIDO; AS PESQUIZAS Á ARCA DE OURO??? Acabei por decidir pelo O SEGREDO DO VELHO MONGE.
E assim iniciei o trabalho. Tão absorto fiquei que até esqueci de almoçar e só fui distraído pelo repetido toque do telefone. Era meu primo o Contra-Almirante.
____Francisco, preciso falar-te amanhã, lá pelas nove da manhã. Pode ser?____Claro que sim, primo, com todo o prazer.

No dia seguinte lá estava precisamente à hora marcada.

____Olha, Francisco, chamei-te aqui porque já tenho algumas novidades... boas novidades. Sabemos já onde exatamente se encontra a arca. Um dos nossos modernos helicópteros, com equipamento moderno de radar que mapeou o subsolo, o sonar encontrou o lugar no fundo da lagoa onde se encontra, digamos, um bom depósito de mineral aurífero. Ora, só pode ser a arca, não achas? Está a 500 metros da margem da lagoa e nós calculamos que está a mais ou menos 100 metros de profundidade. Por outro lado todo o nosso plano de salvamento do tesouro está pronto e assim, vamos iniciá-lo já amanhã, quinta-feira. Aviões da Força Aérea vão conduzir todo o equipamento e pessoal para Bragança, Dali, um veículo militar levar o equipamento pesado para a foz do Córrego, lado leste da lagoa. Trata-se de dois geradores de eletricidade, uma pesada bomba de sucção, longas e largas mangueiras para essa bomba, uma pesada rede revestida com lona impermeável, tendas, equipamento de cozinha, barcos de borracha a motor, etc. Enfim, tudo o que julgamos ser necessário. Quatro mergulhadores, alguns técnicos, pilotos de helicóptero e um destacamento de fuzileiros navais seguirá de helicóptero para base.
Sabemos que tudo vai criar espanto e curiosidade, muito especialmente pela imprensa e pela TV. Não vamos deixar ninguém aproximar-se da base. Os fuzileiros se encarregarão de conter os curiosos antes da curva do riacho e ficarão patrulhando as margens da lagoa. Amanhã a Marinha publicará notas para a imprensa anunciando que estudos hidrográficos sobre varias lagoas do pais serão iniciados e que a Lagoa Santa merece a maior atenção, devido á sua profundidade, á sua água boa e á possibilidade de rios subterrâneos. .
Tu, Francisco, vais na minha companhia, como meu assessor especial. Afinal foste tu quem desvendou o segredo da arca. Sairemos amanhã de manhã de avião para Bragança.
____Muito eu gostaria de convidar o padre Francisco para visitar a base e conhecer tudo que será feito para recuperar a arca.
____Também já pensei nisso – retorquiu o meu primo – De facto já solicitei oficialmente ao comando da Guarda Nacional Republicana (GNR) que mande um jeep para o pegar e levar para a base depois de amanhã, quando espero iniciar os trabalhos.
____Agradeço-te a tua boa vontade.

No dia seguinte, sexta-feira, viajamos para Bragança e daí, de helicóptero para a margem da Lagoa. Quando eu e o meu primo chegamos já a base estava em plena atividade. Tendas tinham sido levantadas, toda a aparelhagem trazida pelo veiculo militar colocada numa grande tenda;. Dois mergulhadores, já com seu equipamento, preparavam-se para descer ás profundidades da lagoa. Meu primo, ficou satisfeito e logo convocou seus assessores para que fossem estabelecidos parâmetros, escalas de trabalho, afim de que a arca fosse içada no domingo.
Logo depois do almoço, a bomba começou a cuspir lodo, detritos e areia. Estavam iniciados os trabalhos para erguer a preciosa arca da lagoa. Os mergulhadores revezavam-se de duas horas em duas horas no fundo da lagoa, para ter a certeza que as mangueiras estavam nos lugares certos e não prejudicariam a arca.
Lá pelas duas horas da tarde chegou o jeep da GNR que trazia o meu amigo, o padre Francisco de Jesus, o meu velho monge, que foi meu sócio, “conspirador” na nossa decisão de desvendar a lenda da arca. Coloquei-o a par do que estava sendo feito, e do facto que deveríamos erguer o tesouro no domingo. Queria que ele estivesse presente a essa festiva ocasião. Prometeu-me que não faltaria.
Ao anoitecer os dois mergulhadores em serviço, subiram e informaram que, lá em baixo, o trabalho estava praticamente concluído e que no dia seguinte, bastariam quatro horas, mais ou menos, para finalizar a limpeza. E mais, que a arca parecia estar em bom estado de conservação, o que não era de estranhar, uma vez que ela tinha sido confeccionada com madeira de carvalho das redondezas, e que a lama onde esteve enterrada durante 200 anos a teria conservado.
No dia seguinte, Sábado, logo de manhã fizeram-se todos os preparativos para colocar a arca dentro da rede e saco de lona. Um helicóptero de carga chegou no meio da manhã e logo fez descer um forte cabo de aço, ao qual foram presas a rede e a bolsa de lona, transportadas em seguida para a lagoa. O aparelho pairou por alguns instantes no exato lugar onde se encontrava a arca debaixo de água. Os quatro mergulhadores já estavam no fundo, de prontidão para apanhar a rede. Para liberar o helicóptero, o cabo foi totalmente baixado até um barco de borracha. Começaria agora um árduo trabalho pelos mergulhadores. Estes teriam que achar um meio de colocar a arca dentro do saco composto pela rede e pela lona. O trabalho teria que ser feito cuidadosamente, usando até macacos hidráulicos para levantar um lado da caixa, desligar a rede e lona por baixo desta e repetir o trabalho do outro lado. Previa-se que levaria praticamente o resto do dia. E assim foi. Eram quatro da tarde quando foi anunciado pelos mergulhadores que o trabalho estava completo e a arca poderia ser içada finalmente.
O almirante Eduardo Ramalho, anunciou que o trabalho final seria feito no dia seguinte, domingo. Assim, acrescentou, cumpriremos todo o esquema de trabalho que fora traçado em Lisboa. E que nessa noite haveria um banquete para comemorar, uma vez que no dia seguinte, o tempo seria escasso para tudo que teria de ser feito, isto é, levantar a base, carregar todo o equipamento, desmobilizar o destacamento de fuzileiros, além, claro de levar o precioso carregamento para o aeroporto de Bragança e de lá para Lisboa.
Foi servido um lauto jantar, com bom vinho e espumante no final, para os brindes e agradecimentos. Faltou , todavia, o velho monge, que só viria no dia seguinte.

Domingo amanheceu com o sol encoberto. O calor diminuía e poderia até esperar-se chuva no final da tarde, o que mais apressou os trabalhos de fechamento da base e retirada de todo o pessoal.
Logo cedo chegou o jeep da GNR trazendo o Padre Francisco, que não continha a sua alegria.
E finalmente o helicóptero de carga chegou. Imediatamente puxou o cabo de aço e a um sinal recebido dos mergulhadores, a postos junto á arca, iniciaram a tarefa de içar a arca.
Eis que o pesado “embrulho” sai das águas devagar e fica agora pairando no ar. Tudo parece ter dado certo. Seguidamente o helicóptero iniciou o seu vôo para o norte para o aeroporto de Bragança, onde, segundo meu primo, o avião de carga da Força Aérea já esperava.
Um segundo helicóptero, de passageiros chegou em seguida. Este seria o transporte de meu primo, de mim, e de alguns de seus assessores, para o aeroporto de Bragança. Nós estávamos destinados a abordar o avião de carga que transportaria o precioso “embrulho” para o aeroporto da OTA, da Força Aérea Portuguesa, perto da capital, Lisboa.
Convidei o Padre Francisco a vir conosco, mas este declinou. Como guardião do convento – respondeu – não podia, nem tinha o direito de abandonar o seu posto no convento. Prometi escrever-lhe para contar a cerimônia em Lisboa.
Aterramos na Base da OTA cerca de 90 minutos depois. Aguardavam a nossa chegada, entre outros muitos dignitários, o Ministro da Economia, O Governador do Banco de Portugal e o Ministro da Presidência, representando o Presidente da Republica.
A Arca, já fora da lona, foi trazida e por um ato lavrado e assinado por mim e pelo Almirante meu primo foi entregue ao Governador do Banco de Portugal.
**********
Passados três dias fui chamado ao Palácio de Belém, onde o Presidente da Republica me agraciou com a Ordem de Cristo, o mesmo fazendo ao velho monge Padre Francisco de Jesus, não presente, mas que eu representei.

EPÍLOGO

As semanas seguintes passei-as a escrever o meu livro. No entretanto recebi diversas condecorações e medalhas, fui, várias vezes, convidado a fazer palestras sobre o caso da arca, fui entrevistado por diversos jornais, enfim fui bastante aclamado e lisonjeado. Finalmente, decorridos praticamente três meses, o Banco de Portugal anunciou que era quase impossível dar um valor ao tesouro. Muitas das peças tinham valor incalculável, pois eram jóias de valor arqueológico e que seriam expostas em museus. O governo, no entanto, estava tomando duas posições. Seriam entregues á Igreja, diocese de Bragança, dez milhões de euros, com a condição de que fosse completamente reconstruída a Igreja do Mosteiro, este fosse completamente reformado e a Biblioteca passasse a ter bibliotecários experientes para catalogar e informatizar todo o seu precioso acervo. Além disso foi solicitada á Igreja que mandasse transferir diversos monges e sacerdotes franciscanos, dando assim vida ao Mosteiro. Apesar de seus 92 anos, ainda bastante fortes, foi nomeado o Padre Francisco, como abade do Convento. Assim, o meu velho amigo passou a ser D. Francisco de Jesus, o que muito me regozijou.
Foi formada uma comissão, presidida pela minha pessoa e pelos presidentes das freguesias da região, entre outros, á qual foram entregues dez milhões de euros, para diversas obras de muita necessidade. Logo foram projetados planos para construção de novas escolas, incluindo uma para ensino secundário, duas creches, estradas foram asfaltadas e duas novas foram abertas, novas sedes para as Juntas de Freguesia, uma cooperativa de produtores de leite ovino, uma pequena, mas moderna usina, para fabricação de queijo e exportação para todo o país e, se possível, para o exterior, um projeto de irrigação para as terras de cultivo, um subsídio para as vinícolas das redondezas, um asilo para os idosos, dois postos de saúde e um pequeno e moderno hospital. Levaria alguns anos para que tudo fosse concluído, sem dúvida, mas eu seria o inspetor-mor... e já informo porquê.
O meu pequeno livro teve grande sucesso de vendas e por isso eu consegui amealhar um bom pecúlio. Estava agora com 36 anos e solteiro. Cheguei à conclusão que o meu futuro estava naquela região montanhosa, que passaria a ter verdadeira fama turística.
Então, pus em prática os meus planos. Dirigi-me ao António Ferreira, dono da pequena pousada da Lagoa Santa, e do melhor restaurante de toda a serrania e propus entrar como sócio dele, investindo o que fosse necessário para ampliar a pousada, modernizá-la e fazer com que fosse conhecida através dos órgãos da imprensa turística. O António Ferreira concordou com júbilo.
Tinha ele duas filhas e um filho. Aquelas, além de serem professoras, ajudavam na administração da pousada. O filho ajudava na lavoura e na vinícola do pai.
A filha mais velha, a Clarita, era uma mulher bonita, de olhos cor de mel, cabelo cor de ouro velho, feições finas e esbelto corpo. Em virtude de nossos planos para a pousada, Clarita e eu convivíamos muito e, então, surgiu um grande amor entre nós. Quatro meses depois estávamos casados e morando numa casa nova que eu tinha mandado construir num terreno ao lado da pousada, que fora a prenda de casamento, ou o dote de minha noiva.
O velho monge, que havia oficializado o nosso casamento, passou a ser nosso convidado nos almoços de domingo e, mais tarde batizou o nosso primeiro
filho, João Francisco. O meu querido Abade faleceu com a belíssima idade de 102 anos.
FIM






































ANEXOS –
Receitas do Roteiro Gastronômico de Portugal
Sopa Montanheira
Ingredientes:
200 g de toucinho
1 cebola
2 dentes de alho
500 g de tomate
500 g de batatas
1 molho de beldroegas
200 g de pão caseiro ou de segunda (duro)

Confecção

Corta-se o toucinho em tiras e leva-se ao lume a derreter.
Quando o toucinho já tiver largado bastante gordura, juntam-se a
Cebola picada, os dentes de alho e o tomate sem pele e sem grainhas
e cortado em bocados.
Deixa-se cozer tudo até obter uma papa grossa.
Rega-se com a água necessária para a sopa (1,5 litros approx.) e quando levantar fervura introduzem-se na panela as batatas cortadas em rodelas e as beldroegas.
150 gr de toucinho fumado;
120gr de banha;
Deixa-se cozer.
Entretanto, corta-se o pão em fatias finas para uma terrina e rega-se
com a sopa.
Deixa-se abeberar um pouco e serve-se.

Chanfana á Senhor da Serra

Ingredientes

1,5 kg de carne de cabra nova (ou de cabrito)
10 dentes de alho;
2 colheres (sopa) de azeite;
Salsa; Louro; Sal; Pimenta;
0,5 dl de vinho tinto;
2dl de água.

Confecção

Depois de limpa, corta-se a carne aos bocados, deita-se num tacho
De barro preto, tempera-se com os dentes de alho esmagados, mas
Com a casca, a banha, o azeite, a salsa, o louro, ovinho.a água e o
toucinho já cortado ás tiras.
Deixa-se assim, de um dia para o outro.
A seguir assa-se no forno até a carne estar tenra.
Servir com batatas cozidas





















[1] Para informação dos leitores interessados farão parte dos anexos desta publicação as receitas da Sopa Montanheira e da Chanfana à Senhor da Serra.

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